Depois do sucesso do “morango do amor” em 2025, outra sobremesa passou a dominar vídeos nas redes sociais e vitrines de confeitaria em 2026. O bolo-pudim, combinação de duas receitas tradicionais bastante populares no Brasil, virou febre entre consumidores e pequenos empreendedores, impulsionado principalmente pelo TikTok e pelo Instagram.
A mistura do bolo com o pudim já existia há anos, mas ganhou novo fôlego com vídeos de cortes perfeitos, caldas escorrendo e fatias generosas. Em poucos meses, o doce passou a atrair filas em feiras, aumentar o faturamento de confeiteiros e se transformar em tendência nacional.
Em Belo Horizonte, a confeiteira Maria Tereza dos Santos vendeu mais de 400 pedaços durante uma feira hippie realizada em janeiro. Segundo relatos, clientes começaram a formar fila ainda nas primeiras horas da manhã para garantir uma unidade do produto, vendido a R$ 25. Antes do meio-dia, todas as fatias já haviam acabado.
Situação semelhante ocorreu em São José do Rio Preto, no interior paulista. A empreendedora Elisângela da Silva Marques comercializou mais de 600 fatias em apenas duas horas em uma barraca montada em um canteiro da cidade. Para atender à procura, a produção passou a envolver familiares e uma equipe de oito pessoas.
As massas são preparadas no meio da semana e a montagem dos bolos ocorre às sextas-feiras. Ao todo, são produzidos cerca de 20 bolos, com média de 30 fatias cada.
Em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, a confeiteira Raphaela Garbeto Brandi também registrou forte aumento nas vendas. Em dez dias, ela afirma ter comercializado mais de 500 fatias, além de encomendas de bolos inteiros.
Os vídeos publicados por Raphaela nas redes sociais ultrapassaram 18 milhões de visualizações. O perfil da confeiteira passou a reunir mais de 20 mil seguidores após a repercussão do doce.
Redes sociais aceleram tendência gastronômica
Especialistas ouvidos pelo g1 apontam que o fenômeno está ligado à forma como as redes sociais transformam produtos visuais em tendências de consumo quase imediatas.
Para Bruno Sola, especialista em marketing e CEO da Bunch Marketing & Growth, sobremesas que despertam curiosidade e possuem forte apelo estético encontram ambiente favorável em plataformas digitais.
“Vídeos curtos e imagens impactantes despertam desejo imediato. A curiosidade gerada no ambiente digital rapidamente se converte em demanda no mundo real”, analisa.
Segundo ele, o sucesso não depende apenas da aparência. A combinação entre nostalgia, exagero visual e experiência sensorial amplia o alcance do conteúdo e incentiva o compartilhamento espontâneo.
“Produtos que combinam nostalgia, curiosidade, indulgência e experiência sensorial acionam gatilhos emocionais que geram mais compartilhamentos, comentários e conteúdos espontâneos. Isso cria um efeito de validação social que impulsiona ainda mais a procura”, explica.
Na avaliação do especialista, pequenos empreendedores conseguem aproveitar melhor esse movimento porque possuem mais agilidade para adaptar produtos, embalagens e formatos conforme a reação do público.
“Pequenos negócios conseguem testar sabores, formatos, embalagens e apresentações em tempo real, surfando tendências antes que elas se desgastem”, afirma Sola.
Ele também destaca a rapidez com que empreendedores brasileiros entendem a dinâmica das plataformas digitais. “Existe uma capacidade muito intuitiva de entender a lógica dos algoritmos e produzir conteúdos alinhados ao que tem maior potencial de recomendação e engajamento”.
Nostalgia e conforto emocional impulsionam consumo
O bolo-pudim segue uma lógica parecida com a observada em outros fenômenos recentes da confeitaria, como a paleta mexicana e o próprio “morango do amor”. Em ambos os casos, o crescimento começou nas redes sociais e rapidamente chegou às vendas presenciais.
No caso do “morango do amor”, as buscas pelo doce cresceram 1.333% em apenas uma semana no Google durante julho de 2025. Os pedidos feitos por aplicativos de entrega também aumentaram mais de 2.300% no mesmo período.
A procura intensa chegou a pressionar o preço do morango em algumas regiões de São Paulo, segundo comerciantes do setor. A expectativa de confeiteiros e especialistas é que o bolo-pudim siga trajetória semelhante ao longo deste ano.
Para Karine Karam, professora de comportamento do consumidor da ESPM e sócia da Markka Pesquisas, o sucesso da sobremesa está diretamente ligado à memória afetiva.
“Sobremesas que unem dois clássicos fazem muito sucesso porque ativam, ao mesmo tempo, conforto e curiosidade. O consumidor conhece o bolo e o pudim, mas quando esses dois universos se encontram, surge uma experiência nova sem romper com o que já é familiar.”
A pesquisadora afirma que bolo e pudim carregam forte relação emocional com a infância e momentos familiares, fator que contribui para a popularidade do doce.
“Tanto o bolo quanto o pudim fazem parte da memória afetiva do brasileiro. Estão associados à infância, à casa da avó, a encontros familiares. Quando aparecem juntos, há uma potencialização dessa nostalgia”, diz.
Karine também observa que o aspecto visual tem papel decisivo na viralização do produto.
“O bolo-pudim é extremamente ‘instagramável’: as camadas bem definidas, a calda escorrendo, o contraste de texturas e o momento do corte geram forte estímulo visual. Hoje, muitos alimentos são consumidos primeiro pelos olhos e pela câmera do celular”, observa.
Para ela, o fenômeno não deve ser tratado apenas como uma moda passageira da internet. “O bolo-pudim faz parte de uma tendência maior da confeitaria contemporânea, que valoriza produtos híbridos, exagerados e altamente sensoriais. O alimento deixa de ser apenas comida e vira experiência, entretenimento e conteúdo”, conclui.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/imagem-ia-gratis/a-imagem-do-bolo-gerada_57312039.htm

