A carreira de comissário de bordo voltou ao centro das discussões após a repercussão de vídeos nas redes sociais que comparam salários e benefícios pagos por companhias internacionais. No Brasil, a realidade é diferente, tanto em remuneração quanto em exigências legais e rotina de trabalho. Ainda assim, trata-se de uma profissão estruturada, com regras claras, possibilidade de crescimento e demanda constante nas principais empresas aéreas do país.
De acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a missão do comissário de voo é “cuidar da segurança, tranquilidade e conforto dos passageiros do transporte aéreo, bem como do restante da tripulação”. A função envolve atendimento, mas também resposta a emergências, cumprimento rigoroso de procedimentos e atuação direta na segurança operacional.
Requisitos para ingressar na profissão
Para atuar como comissário de bordo no Brasil, é preciso cumprir critérios básicos. O candidato deve ter no mínimo 18 anos, ensino médio completo, estar em dia com obrigações eleitorais e, no caso dos homens, militares. Também é necessário comprovar capacidade de ler, escrever e compreender a língua portuguesa e possuir o Certificado Médico Aeronáutico de segunda classe, que atesta aptidão física e psicológica.
Desde janeiro de 2024, a Anac atualizou as regras para concessão da licença. Não é mais obrigatório concluir o curso em escola de aviação nem realizar o exame teórico da agência. Apesar disso, a maioria das companhias segue exigindo formação completa como etapa eliminatória nos processos seletivos.
Segundo Salmeron Cardoso, CEO do Centro Educacional da Aviação do Brasil (CEAB), as empresas não contratam candidatos sem treinamento teórico e prático. “Essa preparação é um requisito básico para quem vai atuar diretamente com a segurança e o atendimento dos passageiros a bordo”, afirma.
Idiomas continuam sendo um diferencial relevante. Em algumas seleções, o inglês é eliminatório. Libras tem aparecido como habilidade valorizada, associada a políticas de inclusão. Na Gol, inglês ou espanhol em nível intermediário é requisito. Na Azul, outros idiomas contam pontos, mas não são obrigatórios. A Latam exige experiência prévia em áreas de atendimento ou vendas.
Formação exigida pelas companhias
Mesmo sem obrigatoriedade regulatória, os cursos seguem sendo determinantes. A duração varia de três a cinco meses, com custos entre R$ 2 mil e R$ 7 mil, conforme a escola e o formato. A grade inclui primeiros socorros, combate a incêndio, evacuação de aeronaves, sobrevivência em selva e no mar, além de regulamentos da aviação civil e atendimento a bordo.
Salário inicial e benefícios
O piso salarial do comissário de bordo no início da carreira é de R$ 2.694,79, segundo a Convenção Coletiva de Trabalho 2024/2025 do Sindicato Nacional dos Aeronautas. Algumas empresas pagam acima desse valor. Na Latam, o piso é de R$ 2.874,52. Na Gol, R$ 2.806,39. A Azul não possui valor mínimo definido em acordo específico.
Além do salário-base, há adicionais por horas de voo diurnas e noturnas, compensação orgânica, pagamento por tempo em solo, sobreaviso e vale-alimentação. As diárias para hospedagem e alimentação fora da base não são benefício, mas obrigação legal prevista em convenção coletiva.
Segundo Salmeron Cardoso, a remuneração total costuma variar entre R$ 4 mil e R$ 6 mil, dependendo da empresa, da escala e do tempo de serviço. Entre os benefícios mais comuns estão passagens com desconto, plano de saúde e odontológico, seguro de vida, vale-transporte, auxílio-creche e treinamentos periódicos.
Rotina e limites de jornada
A rotina é regulada pela Lei do Aeronauta e pelo RBAC-117 da Anac. A legislação estabelece limites de jornada, horas de voo e descanso. A escala deve ser divulgada com pelo menos cinco dias de antecedência e incluir voos, treinamentos e folgas.
A lei garante ao menos 10 folgas mensais de 24 horas consecutivas, sendo duas em sábado e domingo. A jornada diária pode variar de 9 a 18 horas, conforme o tipo de operação. Os limites mensais de voo são de até 80 horas em aeronaves a jato e 800 anuais, com variações conforme o equipamento utilizado.
Desafios e crescimento profissional
A profissão exige preparo emocional, resiliência e capacidade de decisão rápida. Horários irregulares, afastamento da família e pressão em situações críticas fazem parte da rotina. “Os comissários passam por treinamentos constantes de segurança e primeiros socorros e precisam estar prontos para tomar decisões em segundos”, afirma Elisabete Antunes, diretora dos comissários de bordo da Azul.
Há oportunidades de crescimento. O profissional pode se tornar Chefe de Cabine, Instrutor ou Examinador Credenciado, mediante qualificação e aprovação da Anac. Também é possível migrar para áreas de solo ou gestão operacional. Para quem busca a carreira, dedicação, formação contínua e foco absoluto na segurança seguem sendo os principais diferenciais.
Fonte: G1
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