Empreender no Brasil costuma ser apresentado nas redes sociais como sinônimo de liberdade, sucesso rápido e realização pessoal. Vídeos curtos, frases motivacionais e histórias de exceção ajudam a sustentar a ideia de que basta coragem para transformar um sonho em empresa lucrativa. Para Ana Minuto, fundadora da Minuto Consult, essa narrativa ignora a complexidade do processo e contribui para frustrações silenciosas. A empresária defendeu, durante participação no programa “Divã de CNPJ”, que o empreendedorismo precisa ser tratado com mais honestidade.
Segundo Ana, abrir um negócio envolve solidão, renúncias e um grau elevado de disciplina, aspectos pouco valorizados no discurso predominante. Ela chama atenção para o fato de que o sucesso não é garantido e que obstáculos financeiros, emocionais e estruturais fazem parte da rotina, sobretudo para mulheres negras e pessoas da periferia, que partem de condições mais desiguais. Para a consultora, romantizar esse caminho cria expectativas irreais e pode agravar o sentimento de fracasso quando os resultados não aparecem.
“A gente tem que parar de romantizar empreendedorismo, porque não é simples. Você vai ter que trabalhar muito, e vai ter que estudar muito, e vai ter que deixar a família, e vai ter que deixar a festinha, e vai ter que… Essa é a realidade”- Ana Minuto
Ela afirma que o empreendedor, muitas vezes, precisa sustentar sozinho a própria visão de futuro. O isolamento aparece quando amigos e familiares não compreendem o projeto ou não conseguem enxergar seu potencial. Nesse cenário, o autoconhecimento se torna uma ferramenta central para lidar com a pressão constante e a instabilidade financeira. Ana destaca que a solidão não é apenas prática, mas também emocional, exigindo maturidade para seguir adiante mesmo sem validação externa.
“Quando você empreende, você é sozinho, sozinha. Porque só você está enxergando aquilo que você está enxergando. As pessoas ao seu redor não sabem nem o que você tá falando”.
Ao iniciar sua trajetória fora do mercado corporativo, Ana percebeu que precisava desenvolver competências que vão além do conhecimento técnico. As chamadas soft skills, como resiliência, disciplina e inteligência emocional, passaram a ser decisivas para a sobrevivência do negócio e para a construção de relações profissionais mais saudáveis. A transição exigiu mudanças profundas de comportamento e postura diante do trabalho.
“Eu entendi o quanto eu não tinha autoconhecimento, resiliência, o quanto eu não era disciplinada quando eu empreendi. Quando resolvi empreender, eu me tornei outra pessoa”.
Ana Minuto.
A consultora alerta para o risco de comparar trajetórias e tentar reproduzir fórmulas de sucesso alheias. Embora histórias inspiradoras possam servir como referência, ela avalia que cada empreendimento está inserido em um contexto específico, com recursos, redes de apoio e desafios próprios. Para Ana, a construção de um negócio exige ferramentas adequadas à realidade individual, e não a repetição de modelos idealizados.
“Eu sempre digo que a gente pode olhar a história das pessoas, mas que a gente não pode se apropriar dessa história achando que vai acontecer com a gente. […] A caminhada é sua, a realidade é sua, você vai ter que buscar as suas ferramentas para que as coisas aconteçam” – Ana Minuto
Experiência entre ganhos e perdas
Antes de fundar, há 12 anos, sua consultoria voltada para diversidade e tecnologia, Ana acumulou passagens pelo mercado corporativo na área de sistemas de informação. Também tentou empreender no setor de beleza, primeiro com uma esmalteria que não prosperou após uma sociedade e, depois, com uma clínica de depilação. As experiências reforçaram a percepção de que o empreendedorismo é marcado por tentativas, erros e recomeços.
Essas idas e vindas ensinaram, segundo ela, que a capacidade de adaptação é fundamental para atravessar os altos e baixos de um negócio. O aprendizado é ainda mais duro para quem não tem histórico familiar de empreendedores e precisa construir do zero referências, capital e rede de contatos. Nesse contexto, planejamento financeiro aparece como um ponto central.
Ana defende que quem deseja empreender não abandone imediatamente a fonte de renda principal. Para ela, manter um emprego enquanto o negócio ainda está em fase inicial pode garantir fôlego financeiro e reduzir riscos. A própria trajetória ilustra como ganhos expressivos podem ser seguidos por perdas na mesma proporção.
“Hoje muitas pessoas que trabalham estão buscando empreender, e eu sempre digo, continue trabalhando e empreenda em segundo plano, porque você vai precisar dessa grana para empreender, porque é isso. Eu já fiz milhão e já perdi na mesma medida”. –
Ana Minuto.
Fonte: Portal UOL
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