Crédito imobiliário avança 23% no semestre e supera expectativas

Crédito imobiliário avança 23% no semestre e supera expectativas

O crédito imobiliário brasileiro encerrou o primeiro semestre de 2026 em ritmo superior ao previsto. As concessões para compra e construção de imóveis somaram R$ 180,9 bilhões entre janeiro e junho, alta de 23% sobre os R$ 147,1 bilhões registrados no mesmo período de 2025, segundo a Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança).

Cerca de 850 mil imóveis foram financiados no período, considerando operações com recursos do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo), FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e carteiras livres.

Atualmente, o setor imobiliário no Brasil passa por um momento de readequação. Embora a procura por imóveis se mantenha ativa em variados segmentos, fatores como a taxa de juros elevada, as transformações nas vias de financiamento e a alta nos custos de operação vêm gerando pressão sobre loteadoras, incorporadoras e prestadores de serviços da área. Segundo avaliação de Luciano Mestrich, CEO da Monitori e especialista em gestão de ativos, governança e finanças corporativas, a tendência de consolidação no mercado tende a ir além das grandes corporações.

Aluguéis pressionam decisão de compra

A alta dos aluguéis ajuda a explicar a resistência do mercado. Segundo o Índice FipeZAP de junho de 2026, a locação residencial acumulou avanço de 5,24% no primeiro semestre e de 9% em 12 meses. Os índices ficaram acima do IPCA, de 4,64%, e do IGP-M, de 3,16%.

Das 22 capitais analisadas, 21 registraram aumento nos preços dos aluguéis nos últimos 12 meses. Aracaju liderou a alta, com 25,37%, seguida por Teresina, com 20,78%, e Brasília, com 15,48%.

Em junho, o preço médio nacional chegou a R$ 53,79 por metro quadrado nas 36 cidades monitoradas. São Paulo apresentou o maior valor médio, de R$ 64,98 por metro quadrado.

Para Rodrigo Werneck, estrategista-chefe da Cupola, ecossistema de gestão imobiliária, a decisão de compra tem sido influenciada pela combinação entre aluguéis mais caros, lançamentos com preços maiores e valorização dos imóveis.

“O fator determinante é a valorização dos imóveis novos, decorrente da inflação da construção civil. Quando o imóvel novo fica mais caro, o imóvel pronto se valoriza junto em função da demanda crescente”, afirma. “Em setores de mercado como o econômico, este movimento é ainda mais visível por conta da ampliação das faixas do Minha Casa Minha Vida”, diz o especialista.

Projeção anual pode ser revisada

O desempenho do semestre levou a Abecip a reavaliar suas expectativas para 2026. Em janeiro, a entidade previa crescimento de 16% nas concessões, com volume estimado em R$ 375 bilhões. Segundo o presidente da Abecip, Michel Cury, uma nova projeção será apresentada nas próximas semanas.

As concessões para aquisição e construção com recursos do SBPE chegaram a R$ 93,7 bilhões, avanço de 29% na comparação anual.

O crédito destinado à construção passou de R$ 12,8 bilhões para R$ 26,5 bilhões. O avanço ocorreu após o Banco Central afrouxar regras de compulsório da poupança no ano passado, liberando recursos antes retidos e ampliando a capacidade dos bancos de financiar imóveis. Já a aquisição cresceu 12%, alcançando R$ 67,2 bilhões.

A Abecip ressalta que a comparação considera uma base reduzida no início de 2025.

FGTS e Caixa sustentam expansão

As operações com recursos do FGTS movimentaram R$ 77,6 bilhões, crescimento de 22%. O desempenho foi impulsionado principalmente pelo Minha Casa, Minha Vida.

Na Caixa Econômica Federal, principal financiadora da casa própria no país, a carteira de crédito imobiliário atingiu R$ 1 trilhão.

Por outro lado, as linhas com recursos livres recuaram 8%, para R$ 9,6 bilhões. O movimento reflete o maior custo de captação no mercado.

A poupança também não acompanha o crescimento da demanda. No primeiro semestre de 2026, o saldo negativo foi de R$ 31 bilhões, ante R$ 38 bilhões um ano antes. A carteira do SBPE chegou a R$ 601 bilhões, equivalente a 121% dos recursos direcionáveis da poupança.

Home equity ganha espaço

O crédito com imóvel em garantia, conhecido como home equity, cresceu 30,9% no primeiro semestre, alcançando R$ 6,67 bilhões em concessões. O estoque da modalidade chegou a R$ 34,1 bilhões.

Segundo a Abecip, o tomador contratou, em média, R$ 267 mil, com prazo de 13 anos e garantia equivalente a um terço do valor total do imóvel. A entidade afirma que a poupança continuará estratégica, mas já não consegue, sozinha, acompanhar toda a expansão da demanda por crédito imobiliário.

Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/fotografia-em-close-up-de-uma-pessoa-pensando-em-comprar-ou-vender-uma-casa_10860361.htm