Endividamento coloca grandes varejistas sob pressão em 2026

Endividamento coloca grandes varejistas sob pressão em 2026

A onda de pedidos de recuperação judicial envolvendo marcas conhecidas trouxe novamente o endividamento empresarial para o centro das discussões sobre a economia brasileira. Casas Bahia, Habib’s, Tok&Stok e Marabraz chegaram a 2026 enfrentando dificuldades financeiras, mas por razões que combinam fatores econômicos gerais e problemas específicos de cada negócio.

A alta dos juros aparece entre os principais pontos citados pelas companhias. A Selic chegou a 15% ao ano e permaneceu em patamar elevado, aumentando o custo das dívidas e dificultando a contratação ou renovação de crédito. Para empresas que dependem de capital de giro e financiamento, o cenário reduz a margem de manobra financeira.

O quadro também aparece nos indicadores de inadimplência. Segundo a Serasa Experian, mais de 9,1 milhões de CNPJs estavam inadimplentes em junho de 2026, o maior número da série histórica. As dívidas em atraso somavam R$ 232,9 bilhões.

A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, afirmou que as condições financeiras continuam restritivas, mesmo com o início do ciclo de cortes da Selic. O crédito, portanto, ainda enfrenta limitações para uma recuperação mais consistente.

Casas Bahia enfrenta passivo de R$ 17,3 bilhões

A Casas Bahia está entre os casos de maior dimensão. A companhia protocolou pedido de recuperação judicial em agosto, informando dívidas de R$ 17,3 bilhões.

A empresa relacionou a decisão à piora das condições financeiras, ao custo elevado do crédito, à restrição de liquidez e à pressão sobre consumo e capital de giro. O movimento ocorreu depois de uma recuperação extrajudicial iniciada em 2024, quando a companhia buscou renegociar cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas.

O novo processo mostra a dificuldade de estabilizar uma operação de grande porte quando a empresa permanece exposta a custos financeiros elevados. Ao mesmo tempo, o varejo precisa lidar com consumidores mais cautelosos e com a concorrência crescente das plataformas digitais.

O governo federal, entretanto, não considera que os pedidos representem uma crise generalizada no varejo. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, destacou que as vendas do comércio cresceram 2% entre junho e julho de 2026 e afirmou que o comércio eletrônico apresenta desempenho superior ao das lojas físicas.

Habib’s atribui parte da crise à mudança no consumo

O Grupo Gennius, controlador do Habib’s, entrou com pedido de recuperação judicial envolvendo dívida de R$ 265,2 milhões. O processo foi acolhido pela Justiça de São Paulo e inclui 178 empresas e dois sócios do grupo.

A companhia aponta os efeitos da pandemia, mudanças no comportamento dos consumidores e juros elevados entre os fatores que contribuíram para a crise.

Antes da pandemia, o grupo havia ampliado sua presença em shoppings e centros urbanos. Com a expansão do trabalho remoto e híbrido, porém, houve redução da circulação diária de trabalhadores em determinadas regiões. O avanço do delivery também modificou a relação entre consumidores e restaurantes.

A empresa ainda destacou a elevação da taxa básica de juros, que passou de 4% para aproximadamente 15% ao ano no período analisado.

Tok&Stok e Marabraz têm desafios próprios

O Grupo Toky, proprietário de Tok&Stok e Mobly, também recorreu à recuperação judicial em 2026. A companhia enfrenta um passivo de aproximadamente R$ 1 bilhão e atua em um segmento diretamente afetado pelo comportamento das famílias, pelo custo do crédito e pela competição do comércio eletrônico.

A Marabraz, por sua vez, protocolou pedido de recuperação judicial com dívidas próximas de R$ 140 milhões. O caso possui uma particularidade importante, pois a empresa também enfrenta disputas societárias e familiares.

Documentos relacionados ao processo apontam dificuldades envolvendo garantias utilizadas para captação de recursos. Historicamente, a família recorria ao mercado financeiro para financiar a expansão e a operação do grupo, utilizando ativos, principalmente imóveis, como garantias.

Inadimplência também pesa sobre pequenas empresas

A situação das grandes redes ocorre em um ambiente que afeta empresas de diferentes tamanhos. Das mais de 9,1 milhões de empresas inadimplentes registradas pela Serasa Experian em junho, 8,6 milhões eram micro e pequenas empresas. Esse grupo concentrava R$ 201,4 bilhões em dívidas negativadas.

O dado mostra que a pressão financeira não está restrita às marcas de grande porte. Empresas menores também enfrentam crédito mais caro, menor capacidade de absorver aumentos de custos e dificuldades para manter o fluxo de caixa.

Os casos recentes do varejo, portanto, não apontam para uma única causa. Juros elevados, endividamento acumulado, mudanças no consumo, avanço do comércio eletrônico e problemas internos aparecem em proporções diferentes.

A recuperação judicial surge como instrumento para reorganizar essas obrigações e tentar preservar as atividades. O resultado, porém, depende da capacidade de cada empresa de renegociar dívidas, recuperar liquidez e adaptar seu modelo de negócio às novas condições do mercado.

Fonte: CNN Brasil
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/advogado-explicou-ao-cliente-sobre-a-lei-que-deve-ser-movida-contra-o-processo-judicial_420639426.htm