A governança corporativa pode ser um instrumento para profissionalizar a gestão de empresas familiares e estabelecer regras para decisões e responsabilidades. No Brasil, 90% das empresas têm perfil familiar, segundo o IBGE. Apesar da presença expressiva desse modelo, a continuidade dos negócios enfrenta dificuldades.
Levantamento do Banco Mundial aponta que apenas 30% das empresas familiares chegam à terceira geração, enquanto somente metade delas permanece ativa depois disso. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) evidencia uma fragilidade: 72% das empresas familiares brasileiras não têm plano de sucessão para cargos-chave.
A ausência de planejamento sucessório é parte de um problema estrutural. Quando não existem critérios definidos sobre decisões, responsabilidades e limites entre os envolvidos, conflitos podem ganhar espaço. Também aumenta o risco de mistura entre contas pessoais e empresariais e concentração das escolhas estratégicas.
A governança corporativa busca criar mecanismos para reduzir esse tipo de informalidade. Para isso, quatro princípios são fundamentais: transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa.
Segundo o economista Paulo Narcélio, graduado pela UERJ, com MBA em Finanças e especializações internacionais, a governança corporativa deixou de ser mero diferencial competitivo para se tornar uma exigência indispensável de mercado. Com isso, o tema abandona o papel secundário nas estratégias empresariais e se consolida como pilar fundamental para a sustentabilidade dos negócios a longo prazo.
Transparência organiza informações e fortalece a confiança
O primeiro princípio é a transparência. A prática envolve manter informações estratégicas acessíveis a sócios, gestores e, quando cabível, colaboradores. Dados financeiros, indicadores de desempenho e decisões relevantes passam a ser registrados e compartilhados de maneira organizada.
A organização também interfere na relação da empresa com o mercado. Bancos e investidores analisam riscos e precisam de informações que permitam avaliar a situação do negócio. Quanto mais claros e documentados são os dados, maior tende a ser a previsibilidade para quem participa ou se relaciona com a empresa.
Em negócios familiares, a transparência ajuda a reduzir a dependência de informações concentradas em uma única pessoa. Com processos definidos, diferentes participantes conseguem acompanhar o desempenho e entender os critérios das decisões.
Equidade estabelece regras para sócios e herdeiros
O segundo princípio é a equidade, que prevê tratamento justo para sócios, colaboradores e demais partes interessadas, sem que o grau de parentesco ou o tempo de permanência na empresa determine, por si só, o espaço de cada pessoa.
Essa questão pode gerar conflitos em empresas familiares. Divergências aparecem quando alguém entende que possui menos voz, recebe tratamento diferente ou participa menos das decisões do que deveria, mesmo tendo participação equivalente na sociedade.
Equidade não significa eliminar hierarquias. O objetivo é estabelecer critérios que sejam aplicados de forma coerente, evitando que interesses individuais se sobreponham às necessidades da organização. A adoção dessas regras também cria uma base mais organizada para processos de sucessão.
Prestação de contas acompanha decisões e responsabilidades
O terceiro princípio é a prestação de contas, conhecida também pelo termo accountability. Ele exige que decisões sejam registradas, receitas e despesas sejam justificadas e responsabilidades sejam assumidas tanto em situações positivas e diante de erros.
A prática precisa fazer parte da rotina de gestão. Quando informações e decisões são acompanhadas regularmente, falhas podem ser identificadas antes que provoquem impactos maiores. Isso permite corrigir problemas enquanto ainda existe margem para ajuste, evitando que uma dificuldade operacional se transforme em crise financeira ou em conflito entre sócios.
Esse princípio depende de processos e estrutura administrativa. Sua aplicação fica mais difícil quando a empresa cresce sem desenvolver mecanismos compatíveis com seu tamanho.
Responsabilidade corporativa amplia o olhar da gestão
O quarto princípio é a responsabilidade corporativa. Ele amplia a avaliação sobre o desempenho empresarial para aspectos que vão além do resultado financeiro, considerando o cumprimento das leis, os impactos ambientais e o papel social da organização.
A proposta é incorporar esses fatores à gestão e às decisões do negócio. Para empresas familiares, essa perspectiva se relaciona com a continuidade da organização. Reputação, relações comerciais e capacidade de transmitir a empresa às futuras gerações passam a integrar a gestão.
Ao reunir os quatro princípios, a governança corporativa cria referências para uma administração menos dependente de decisões individuais. Transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa não eliminam conflitos nem garantem a continuidade de uma empresa, mas ajudam a estabelecer processos, critérios e responsabilidades. Em negócios familiares, essa estrutura pode fazer diferença especialmente quando a organização precisa preparar uma nova geração para assumir funções estratégicas.
Fonte: Exame
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/close-up-de-uma-pena-em-um-relatorio_864243.htm

