IA é usada como justificativa para demissões, mas pesquisa aponta impacto limitado

IA é usada como justificativa para demissões, mas pesquisa aponta impacto limitado

A inteligência artificial passou a ocupar um espaço cada vez maior nas estratégias das empresas, influenciando processos, produtividade e decisões de negócios. No entanto, uma pesquisa realizada nos Estados Unidos indica que a tecnologia também vem sendo utilizada como argumento para justificar demissões e congelamento de vagas, mesmo quando seu impacto direto sobre o quadro de funcionários ainda é limitado.

O levantamento, conduzido pela Resume Templates com mil gestores de contratação, revela que 59% das empresas admitem destacar a inteligência artificial ao explicar cortes de pessoal porque essa justificativa costuma ser mais bem aceita do que alegações relacionadas a dificuldades financeiras.

Os resultados sugerem que a IA ganhou importância não apenas como ferramenta de transformação digital, mas também como elemento da comunicação corporativa. Enquanto a inovação transmite uma percepção de modernização e eficiência, problemas orçamentários podem levantar dúvidas sobre a situação econômica das organizações.

Tecnologia ainda não substituiu trabalhadores em larga escala

Apesar de aparecer como um dos principais argumentos para justificar mudanças nas equipes, a inteligência artificial ainda não provocou substituições significativas na maioria das empresas participantes da pesquisa.

Apenas 9% dos gestores afirmaram que determinadas funções foram completamente substituídas por soluções baseadas em IA.

Por outro lado, 45% disseram que a tecnologia reduziu parcialmente a necessidade de novas contratações. Outros 45% informaram que a inteligência artificial provocou pouco ou nenhum impacto sobre o tamanho das equipes.

Os números mostram que o principal efeito da IA tem sido aumentar a produtividade e permitir que as empresas façam mais com estruturas semelhantes, desacelerando novas admissões em vez de eliminar postos de trabalho em grande escala.

Mesmo assim, a comunicação adotada por muitas organizações coloca a tecnologia no centro das justificativas para mudanças no quadro de funcionários.

Entre os entrevistados, 17% afirmaram que suas empresas utilizam diretamente a inteligência artificial para explicar demissões ou congelamento de vagas. Outros 42% disseram recorrer parcialmente a esse argumento.

Na prática, quase seis em cada dez empresas reconhecem destacar o papel da IA durante esse tipo de decisão.

Segundo Kara Dennison, consultora-chefe de carreira da Resume Templates, existe uma razão para esse comportamento.

“IA sugere progresso em vez de problemas”, afirma.

De acordo com a especialista, relacionar mudanças à inovação tecnológica costuma transmitir uma imagem de planejamento estratégico e evolução dos negócios. Em contrapartida, justificar cortes apenas por limitações financeiras pode gerar insegurança entre funcionários, investidores e parceiros.

Discurso pode gerar desconfiança dentro das empresas

Embora a estratégia possa favorecer a percepção externa das organizações, Kara Dennison alerta para possíveis efeitos negativos no ambiente interno.

Se os colaboradores não perceberem mudanças concretas provocadas pela inteligência artificial em suas atividades, a justificativa pode reduzir a confiança na liderança e aumentar questionamentos sobre os verdadeiros motivos das demissões.

Nesse cenário, a narrativa baseada na tecnologia pode deixar de cumprir o objetivo de minimizar impactos e acabar ampliando dúvidas entre as equipes.

A pesquisa mostra que existe uma diferença importante entre utilizar ferramentas de IA para aumentar eficiência operacional e atribuir a elas a responsabilidade pelas mudanças na estrutura de pessoal.

Empresas continuam contratando profissionais

Mesmo diante das expectativas de cortes, o levantamento indica que o mercado de trabalho continuará apresentando movimentação.

Embora 55% das empresas afirmem que pretendem realizar demissões em 2026, 92% informaram que planejam contratar novos funcionários.

O resultado aponta para uma reorganização das equipes, com redução de algumas funções e reforço de áreas consideradas mais alinhadas às estratégias futuras dos negócios.

Entre os principais motivos citados para as demissões estão o impacto da inteligência artificial, mencionado por 44% dos gestores, as reestruturações organizacionais, apontadas por 42%, e as restrições orçamentárias, lembradas por 39%.

Segundo Kara Dennison, esse movimento representa uma redistribuição de investimentos e prioridades dentro das empresas.

“Estamos vendo um reequilíbrio da força de trabalho”, afirma a especialista. Segundo ela, as organizações estão priorizando “capacidade, flexibilidade e impacto” em vez de simplesmente manter estruturas tradicionais.

Competências humanas seguem valorizadas

O levantamento também identificou quais habilidades permanecem entre as mais procuradas pelos empregadores em um ambiente cada vez mais influenciado pela inteligência artificial.

A capacidade de resolver problemas lidera o ranking, sendo apontada por 54% dos gestores como uma das três competências mais importantes para novas contratações.

Na sequência aparecem a facilidade para aprender rapidamente novas ferramentas e tecnologias, citada por 44% dos entrevistados, as habilidades de comunicação, com 43%, a adaptabilidade, com 39%, e a colaboração e o trabalho em equipe, mencionados por 36%.

Curiosamente, a familiaridade com ferramentas de inteligência artificial foi lembrada por 31% dos gestores, ficando atrás de diversas competências comportamentais.

Os resultados indicam que, mesmo com a rápida evolução tecnológica, características humanas continuam sendo consideradas diferenciais importantes pelas empresas, especialmente pensamento crítico, aprendizado contínuo, comunicação e adaptação às mudanças.

Outro dado chama atenção. Apenas 21% dos entrevistados apontaram potencial de liderança entre as prioridades para novas contratações, sugerindo uma busca maior por profissionais capazes de entregar resultados de curto prazo.

A pesquisa foi realizada pela Resume Templates em dezembro de 2025 com mil gestores de contratação dos Estados Unidos. Todos ocupavam cargos com influência direta nas decisões de recrutamento. A coleta de dados ocorreu por meio da plataforma Pollfish, utilizando a metodologia Random Device Engagement. Segundo a empresa, as respostas foram anônimas e passaram por mecanismos de controle de qualidade antes da divulgação dos resultados.

Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/empregado-contratado-pelo-concorrente-para-espiar-informacoes-de-mineracao-dos-servidores-da-empresa_417798617.htm