Durante décadas, Antônio Alves de Deus trabalhou no setor de mármore e granito em Goiás. Aos 64 anos, decidiu começar praticamente do zero em outro segmento: alimentação. Hoje, acompanha diariamente a operação da Coralí Pães, padaria inaugurada recentemente em Goiânia, resultado de um projeto que levou quase oito anos entre pesquisas, estudos e planejamento.
A trajetória dele reflete uma tendência cada vez mais presente no mercado brasileiro. Pessoas acima dos 50 anos têm ampliado participação no empreendedorismo, seja para realizar um antigo projeto pessoal, seja para complementar renda em um cenário econômico mais apertado.
Levantamento do Sebrae Goiás aponta que o número de empresas com sócios nessa faixa etária mais que dobrou no estado em uma década. Em 2015, Goiás tinha cerca de 107 mil negócios liderados por empreendedores 50+. Em 2025, esse total alcançou 260,5 mil empresas. Atualmente, quase três em cada dez negócios ativos no estado possuem sócios acima dessa idade.
O movimento integra o avanço da chamada economia prateada, conceito ligado à participação crescente da população madura na atividade econômica, no consumo e no mercado de trabalho.
Empreendedorismo cresce entre aposentados e profissionais experientes
Parte desses novos empresários chega ao mercado por necessidade financeira. Outra parcela vê no negócio próprio a oportunidade de colocar em prática um sonho antigo ou utilizar a experiência acumulada ao longo da carreira.
Segundo dados do IBGE, Goiás ultrapassou a marca de 1 milhão de moradores com mais de 60 anos em 2025. Entre aposentados e pensionistas, a renda média era de R$ 2.692, abaixo de dois salários mínimos.
Para a gestora do Programa Plural do Sebrae Goiás, Thaís Oliveira, a pressão sobre o orçamento doméstico ajuda a explicar o aumento do empreendedorismo entre pessoas mais velhas.
“Existe uma grande parcela de pessoas 60+ que estão empreendendo por necessidade, para aumentar a renda para comprar remédios, para ter acesso a serviços de saúde, que cada vez mais estão mais caros”, afirmou.
No caso de Antônio, a decisão foi motivada pela vontade antiga de atuar no ramo de alimentação. Mesmo vindo de outro setor, ele afirma que só colocou o projeto em prática depois de estudar profundamente o mercado.
“Foi um trabalho de oito anos, de muita dedicação, de estudo de projeto, de marca, de identidade. Um trabalho árduo para que isso acontecesse do nível que está acontecendo”, contou.
Planejamento reduz riscos no início da empresa
Antes da abertura da padaria, Antônio participou da Feira Internacional de Panificação, Confeitaria e Varejo Independente de Alimentos, a Fipan, realizada em São Paulo. A ideia era entender melhor o funcionamento do segmento e identificar tendências do mercado.
Bruno Figueiredo de Souza, um dos sócios do empreendimento, lembra que o projeto começou ainda em 2018.
“O Antônio sempre teve esse sonho de montar alguma coisa na área de alimentação. E, há oito anos, ele falou: ‘Bruno, vamos lá em São Paulo, vamos começar a analisar, vamos ver, né, começar a estudar o mercado’”, relatou.
O cuidado também apareceu na construção da identidade da empresa. O nome Coralí faz referência à escritora goiana Cora Coralina, conhecida não apenas pela literatura, mas também pelo trabalho como doceira na cidade de Goiás.
“A gente optou por essa justamente para trazer uma imagem que dificilmente vai ser apagada em Goiás, que é a de Cora Coralina”, explicou Antônio.
Para especialistas, o planejamento é um dos principais fatores que ajudam a manter empresas em funcionamento nos primeiros anos. Thaís Oliveira afirma que o empreendedor precisa mapear custos, demanda, concorrência e capacidade financeira antes de iniciar a operação.
“É necessário um planejamento dentro da expectativa e das possibilidades desse empreendedor para ele saber: ‘olha, dando tudo certo ou dando um pouco errado, é esse o resultado que eu vou ter aqui no próximo um ano, nos próximos seis meses’”, disse.
Maturidade emocional ajuda na gestão do negócio
A rotina da Coralí Pães vai muito além da produção de alimentos. O estabelecimento reúne cafeteria, buffet de café da manhã, almoço, minimercado e serviços de coffee break. Com cerca de 90 funcionários, o empreendimento exige atenção em áreas como logística, recursos humanos, contabilidade e administração.
Antônio admite que formar uma equipe de confiança tem sido uma das partes mais difíceis do processo.
“Está sendo um desafio montar um time que vai me transmitir confiança. Esse talvez seja o trabalho, a coisa mais difícil que eu estou encontrando. Fazer meu time produzir sem eu estar aqui”, afirmou.
Os filhos dele, Vagner Alves da Silva e Valéria Alves da Silva, também participam da operação do negócio. Ambos trabalham como servidores públicos e ajudam o pai na organização da empresa.
“Como o negócio é muito grande, dentro da logística tem muito serviço. Então, a minha irmã está inicialmente auxiliando na parte de RH… E eu brinco que estou jogando em todas as posições. A gente tenta abraçar tudo o que precisa”, disse Vagner.
Segundo Thaís Oliveira, a experiência de vida costuma trazer vantagens importantes para empreendedores mais velhos. Entre elas estão a capacidade de análise, visão estratégica e controle emocional diante das dificuldades.
“Esses empreendedores lidam de outra forma ao enfrentarem as adversidades ao empreender. Quando começam as dificuldades, eles observam isso com menos ansiedade, por exemplo”, explicou.
Empresas de empreendedores 50+ apresentam menor mortalidade
Empreender no Brasil ainda envolve desafios como juros altos, carga tributária elevada e dificuldade de acesso a crédito barato. Antônio afirma que os custos continuam sendo um dos principais obstáculos para quem decide investir.
“Talvez o principal desafio de empreender no país, que faz muita gente desanimar, é a carga tributária muito excessiva”, afirmou.
Mesmo diante desse cenário, empresas comandadas por pessoas acima dos 50 anos apresentam índices menores de fechamento. Dados do Sebrae mostram que entre 20% e 25% dos negócios em geral encerram atividades antes de completar dois anos.
Entre os empreendedores maduros, porém, cerca de 90% conseguem atravessar esse período inicial.
Em Goiás, um levantamento do Sebrae baseado em dados da Receita Federal mostrou que, entre 2020 e 2025, nenhuma empresa desse grupo foi encerrada no estado.
Thaís Oliveira destaca que um dos pontos mais importantes para a sobrevivência da empresa é o capital de giro, especialmente em um ambiente de juros elevados.
“A falta de capital de giro é uma causa muito recorrente para o fechamento das empresas dentro de três anos. O coração é o financeiro”, afirmou.
Com experiência empresarial e formação técnica em contabilidade, Antônio afirma que buscou reduzir riscos antes da inauguração da padaria.
“Começar um negócio sem ter nada, com as taxas de juros muito alta, é inviável”, concluiu.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/retrato-de-sorrindo-soprador-de-vidro_6405938.htm

