Cardiologista fala sobre os riscos dos diagnósticos tardios e as consequências da baixa representação de mulheres em ensaios clínicos cardiológicos
As mulheres são as que mais sofrem com doenças cardiovasculares no Brasil, superando os homens em número de mortes por hipertensão, por exemplo. O pano de fundo que justifica os números não é difícil de ver. A rotina estressante, o acúmulo de funções e a sobrecarga de tarefas torna o dia a dia feminino muito mais estressante, fazendo com que muitas mulheres convivam com estresse crônico.
O problema é que quando vivenciado de forma contínua, o estresse aciona o sistema de resposta ao perigo, liberando hormônios como cortisol e adrenalina. Esses compostos elevam a pressão arterial, aceleram os batimentos e contribuem para inflamações silenciosas que prejudicam o coração.
Estudos como o da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) mostram que 66,4% das mais de 90 mil mulheres entrevistadas declararam estresse intenso nos últimos 12 meses, contra apenas 37% dos homens.
“O estresse não é apenas uma questão de mente, ele altera a fisiologia do coração. Cada situação de tensão prolongada deixa uma marca invisível que, a longo prazo, pode ser fatal”, explica o médico cardiologista Dr. Victor Duque Estrada Zeitune.
Estresse e coração: a ciência por trás da conexão
A pesquisa “Estresse Psicológico e Saúde Cardiovascular em Mulheres Brasileiras”, realizada pela Socesp e publicada nos Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz, mostrou que o estresse, seja doméstico, social ou financeiro, está associado a fatores de risco como hipertensão, sedentarismo e má alimentação. Mulheres negras e pardas sofrem mais com esses fatores e acumulam riscos adicionais, como falta de atividade física e má alimentação, o que aumenta a vulnerabilidade cardiovascular.
Ainda de acordo com o Dr. Victor Duque Estrada Zeitune, quando o corpo vive em estado constante de alerta, os hormônios do estresse aumentam a pressão arterial e provocam inflamações silenciosas. Esse efeito cumulativo é especialmente prejudicial para mulheres, que muitas vezes acumulam múltiplos papéis na vida diária.
Os números que não podemos ignorar
Segundo o Observatório da Saúde Cardiovascular do Instituto Nacional de Cardiologia (INC), em 2023 foram registradas 182.066 mortes de mulheres por doenças cardiovasculares no Brasil ou 47,2% do total nacional.
O infarto agudo do miocárdio foi responsável por 37.332 desses óbitos, enquanto a hipertensão ocasionou 18.571, números que revelam um panorama alarmante e subestimado pela sociedade e pelos serviços de saúde.
Sub-representação em estudos médicos: um perigo invisível
A baixa inclusão de mulheres em ensaios clínicos compromete o diagnóstico e o tratamento eficazes. Sintomas típicos masculinos podem não se aplicar às mulheres, levando a atrasos no reconhecimento das doenças. Em audiência pública realizada em maio de 2025 no Senado Federal, especialistas alertaram que essa lacuna na representação contribui diretamente para diagnósticos tardios e pior prognóstico para as mulheres.
“A sub-representação feminina em ensaios clínicos impede que conheçamos completamente como o coração da mulher reage a tratamentos. É um risco silencioso que precisa ser discutido e corrigido”, alerta o Dr. Victor Duque Estrada Zeitune.
Diagnósticos tardios: a suspeita que demora
Diferenças nos sinais de alerta também complicam o quadro. Mulheres podem apresentar sintomas silenciosos ou atípicos, como fadiga extrema, falta de ar, náusea, dores nas costas ou desconforto leve no peito, e ainda terem seus quadros confundidos com ansiedade. Isso atrasa o diagnóstico de condições como infarto, arriscando a vida da paciente
“Muitas mulheres chegam ao consultório depois que o problema já está avançado porque seus sintomas não são reconhecidos como sinais cardíacos. Isso é uma falha grave no sistema de saúde”, enfatiza o cardiologista.
Dicas práticas para enfrentar o estresse e proteger o coração
Adotar hábitos simples e conscientes ajuda a reduzir a sobrecarga emocional e protege a saúde cardiovascular. Confira algumas dicas práticas para enfrentar o estresse e cuidar do seu coração:
- Fortaleça sua rede de apoio: conversar com amigos, família ou grupos comunitários reduz a sobrecarga emocional e tem efeito cardioprotetor.
- Pratique atividade física regular: além de aliviar o estresse, reduz o risco de hipertensão e eventos cardíacos.
- Dedique tempo para si: técnicas como respiração consciente, meditação e pausas, mesmo que curtas, durante o dia ajudam a controlar a resposta ao estresse.
- Reconheça os sintomas: não ignore fadiga crônica, falta de ar inexplicada ou tontura, procure um cardiologista.
- Priorize uma alimentação saudável, preferindo sempre alimentos naturais aos industrializados.
Encerrar com impacto: a voz que faltava ser ouvida
As mulheres enfrentam um risco duplo: o estresse invisível que mina o seu coração e a invisibilidade médica que atrasa o diagnóstico. Mas quando essas duas realidades ganham visibilidade e enfrentamento, torna-se possível transformar a realidade.
“Precisamos ouvir e tratar o coração das mulheres com a mesma atenção que damos à mente. Saúde emocional e física caminham juntas e reconhecer isso é o primeiro passo para salvar vidas”, conclui o Dr. Victor Duque Estrada Zeitune.
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