O varejo global começa 2026 com uma agenda tecnológica mais pragmática. Eficiência operacional, integração entre canais físicos e digitais e aplicação de inteligência artificial nas rotinas de negócio aparecem como eixos centrais. A avaliação é reforçada por dados da Gartner, que projeta que, até o fim de 2026, mais de 60% dos grandes varejistas terão implantado modelos de IA operacional capazes de influenciar decisões em tempo real. Em 2023, esse percentual era inferior a 20%.
O avanço indica uma mudança de patamar. A inteligência artificial deixa de ocupar espaço restrito a testes e passa a interferir diretamente em preços, estoques, promoções e logística. Durante a NRF Retail’s Big Show 2026, realizada em janeiro, em Nova York, a Softtek Brasil apresentou um panorama de como essas tecnologias deixaram de ser iniciativas isoladas para integrar o núcleo da estratégia varejista.
“A tecnologia deixou de ser diferencial para ser infraestrutura. O que importa agora é o impacto mensurável no negócio, no cliente e no resultado”, afirma Ana Dividino, vice-presidente de negócios da companhia.
A partir desse cenário, a empresa elencou cinco tendências que devem orientar os investimentos do setor ao longo do ano.
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IA operacional assume decisões em tempo real
A aplicação prática da inteligência artificial nas operações ganha escala. Em vez de projetos experimentais, a IA passa a compor a rotina de lojas físicas e e-commerces. Entre os usos mais frequentes estão algoritmos que ajustam preços de forma dinâmica, recomendam reposição de produtos com base na demanda e analisam o comportamento do consumidor para apoiar decisões imediatas no ponto de venda.
Segundo Ana, esse tipo de aplicação contribui para reduzir perdas por ruptura de estoque, melhorar a gestão logística e otimizar custos. A tecnologia atua sobre dados integrados de vendas, estoque e perfil de consumo, permitindo respostas quase instantâneas a variações de demanda.
O movimento acompanha uma pressão crescente por margens mais eficientes. Em um ambiente de competição intensa e consumidor sensível a preço, decisões automatizadas e baseadas em dados tendem a ganhar protagonismo.
Unified commerce como base competitiva
A integração entre canais deixou de ser projeto aspiracional. O chamado unified commerce, que consolida operações físicas e digitais em uma única plataforma, passa a ser condição de competitividade. A proposta é alinhar estoque, preços, promoções e histórico de compras, independentemente do canal utilizado pelo cliente.
Operações integradas reduzem inconsistências, evitam rupturas e melhoram a experiência de compra. A conversão tende a crescer quando o consumidor encontra as mesmas condições na loja física, no aplicativo ou no site.
No Brasil, embora o conceito de omnichannel tenha avançado nos últimos anos, ainda há barreiras. Sistemas legados, problemas de qualidade de dados e falta de governança dificultam a consolidação das informações. Esse cenário abre espaço para projetos de modernização tecnológica e revisão de arquitetura de sistemas.
Agentes inteligentes e governança
O uso de agentes inteligentes, sistemas capazes de executar decisões operacionais com mínima intervenção humana, também avança. Essas soluções já são aplicadas no atendimento ao cliente, na triagem de solicitações e na gestão de estoques.
A ampliação da automação exige, porém, mecanismos de controle. Políticas claras de governança, observabilidade e segurança passam a ser indispensáveis, sobretudo diante do risco de vieses algorítmicos ou de decisões automatizadas sem supervisão adequada.
Empresas que adotam agentes autônomos precisam estruturar processos de monitoramento contínuo, garantindo que as ações estejam alinhadas às diretrizes estratégicas e às normas regulatórias.
Dados próprios e personalização em escala
Com a restrição crescente ao uso de cookies de terceiros e maior atenção do consumidor à privacidade, os dados próprios, coletados diretamente pelos canais da empresa, tornam-se ativos estratégicos. Informações obtidas via site, CRM, e-commerce ou redes sociais permitem personalização com base em consentimento.
A integração desses dados possibilita recomendações mais contextuais e ofertas alinhadas ao perfil de cada cliente. O resultado esperado é aumento da taxa de conversão e maior retenção.
A personalização em escala depende, no entanto, de bases organizadas e interoperáveis. Sem integração entre sistemas, o potencial dos dados próprios se dilui.
Automação orientada por ROI
A quinta tendência destacada envolve disciplina na mensuração de resultados. Iniciativas tecnológicas passam a ser avaliadas com base em metas claras de retorno sobre investimento. Projetos que não demonstram impacto mensurável tendem a perder prioridade.
Varejistas que combinam tecnologia, operação e governança conseguem ciclos de avaliação mais estruturados e ganhos operacionais consistentes. A lógica é substituir experimentação dispersa por programas com indicadores definidos desde o início.
Para Ana Dividino, o Brasil reúne condições para liderar essa transformação na América Latina, desde que as empresas avancem além de pilotos isolados. “Ter tecnologia não é suficiente: é fundamental conectá-la à estratégia do negócio, com propósito claro e métricas que comprovem seu impacto”, conclui.
Em 2026, a discussão tecnológica no varejo deixa de girar em torno de novidade e passa a se concentrar em execução. Integração, inteligência aplicada e foco em resultado formam o tripé que deve influenciar diretamente o desempenho de caixa das empresas do setor.
Fonte: Diário do Comércio
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